
Estamos dialogando com os amigos leitores, ao longo desse mês de novembro, nesta Coluna das quartas-feiras, sobre a identidade e missão das CEBs-Comunidades Eclesiais de Base. Isso porque, as atuais Diretrizes Gerais da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, como aparece no Documento da CNBB 109, falam genericamente em Comunidades Eclesiais Missionárias. Explicitar o sentido e a importância das CEBs, como um jeito novo de ser Igreja torna-se necessário por fidelidade às suas origens e história pela articulação que fazem em sua prática entre fé e vida, oração e ação social transformadora. Corre-se o risco, das novas gerações de fiéis e clérigos identificarem as referidas CEBs com qualquer comunidade religiosa.
Gostaríamos de destacar a letra “B” das CEBs, ou seja a categoria Base. Esta é entendida e vivida sociológica e teologicamente como Igreja das Bases, Igreja dos Pobres. Nesta semana estamos celebramos, coincidentemente, a III Jornada Mundial dos Pobres. E nada mais oportuno resgatar a experiência eclesial em que os pobres são protagonistas da missão evangelizadora e das incursões da Igreja na cultura, na politica e na economia. Daí, nesta Semana da Solidariedade em preparação ao Dia Mundial do pobre, no próximo Domingo, acolhermos a profecia do Para Francisco: “A Esperança dos pobres jamais se frustrará”.
Limito-me assim, explicitar a perspectiva das bases pobres das CEBs à luz do que toda Igreja abraça nessa jornada dos pobres. Em 2016, no encerramento do Ano da Misericórdia, o papa Francisco convocou católicos e pessoas de boa vontade para uma jornada de solidariedade e proximidade com as pessoas empobrecidas. A convocação trouxe como lema: “Não amemos com palavras, mas com obras”. Desde então a Jornada Mundial dos Pobres entrou para o calendário anual das iniciativas da Igreja. Em 2018 o tema foi: “Este pobre clama e o Senhor o escuta”.
“A esperança dos pobres jamais se frustrará” (Salmo 9, 19), é, neste ano, o tema central da Mensagem do papa Francisco, na qual afirma: “A promoção, mesmo social, dos pobres não é um compromisso extrínseco ao anúncio do Evangelho; pelo contrário, manifesta o realismo da fé cristã e a sua validade histórica. O amor que dá vida à fé em Jesus não permite que os seus discípulos se fechem num individualismo asfixiador, oculto nas pregas duma intimidade espiritual, sem qualquer influxo na vida social”. E mais: “a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora é uma escolha prioritária que os discípulos de Cristo são chamados a abraçar para não trair a credibilidade da Igreja e dar uma esperança concreta a tantos indefesos”.
Compartilho enfim, alguns dados estatísticos que devem gritar à nossa consciência como apelo urgente de solidariedade. São dados do Cadastro Único do Ministério da Cidadania que mostram que a pobreza extrema no país aumentou e já atinge 13,2 milhões de pessoas. Nos últimos sete anos, mais de 500 mil pessoas entraram em situação de miséria. O Nordeste tem o pior cenário, sendo que as maiores taxas a cada 100 mil habitantes são do Piauí (14,087), Maranhão (13,861) e Paraíba (13,106). De junho de 2018 a junho de 2019, Roraima e Rio de Janeiro tiveram o maior aumento da extrema pobreza, com incrementos de 10,5% e de 10,4%, respectivamente. No Distrito Federal, o total de famílias inscritas no Cadastro Único, até junho de 2019, era de 158.280, entre as quais 71.091 com renda familiar per capita de até R$ 89,00 por mês.
Em 2014, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) tirou o Brasil do Mapa da Fome, composto por países em que mais de 5% da população consome menos calorias do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Há o temor, porém, de que o país volte a fazer parte do grupo. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2016 e 2017, a pobreza no Brasil passou de 25,7% para 26,5% da população. O número dos extremamente pobres, aqueles que vivem com menos de R$ 140 mensais, saltou, no período, de 6,6% para 7,4% dos brasileiros.
Por tudo isso e por fidelidade a Jesus Cristo e ao seu Evangelho (Mt 25) queremos como Igreja de Jesus Cristo ser CEBs, a Comunidade dos pobres para os pobres!
Medoro, irmão-menor-padre pecador.