Iniciamos no último domingo o novo ano litúrgico da Igreja. Teve início o Advento. Advento é o tempo da esperança com as quatro semanas que precedem o Natal em preparação à chegada de Jesus. No Natal celebramos a vinda de Deus ao nosso encontro, ao encontro de toda humanidade. Deus desce de sua glória para arrancar o ser humano do pecado e eleva-lo à sua dignidade de filho. Vale lembrar os versos natalinos do teólogo amigo Leonardo Boff, que nessa última semana celebrou seus oitenta anos: “todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser ‘deus’. Só Deus quis ser menino”. 
Trata-se, como dissemos de um caminho de mão dupla de Esperança.  Nos convida, por um lado a preparar esperançosamente a nossa vida para o encontro com o Senhor que virá em sua glória. E, por outro, nos anima nessa esperança recordando as circunstâncias de sua primeira vinda. Assim, ao mesmo tempo em que nos lança ao futuro, o Advento também nos lança ao passado, convidando-nos a contemplar com o coração humilde e agradecido o Mistério da Encarnação. Pelo fato de ter vindo e, ao mesmo tempo de estar vindo, também nos promete vir na glória. Assim, Jesus nos abre o espaço de viver da esperança e viver na esperança.
Para quem crê, nos recorda o biblista Marcelo de Barros, a esperança não consiste apenas em aguardar algo que se deseja e sim em viver de acordo com aquilo que se espera. Na etimologia do termo latino (spes), a esperança significa tornar presente agora aquilo que é desejado ou esperado para amanhã.  A esperança nada tem a ver com a ilusão do futuro. Ao contrário, a verdadeira esperança nos enraíza no presente, no aqui e agora, para nos abrir à plenitude do que podemos ser. Por isso dizemos: é tempo de Esperançar!
Assim a esperança nos transforma, como também transforma o mundo. É claro que não estamos falando de uma esperança qualquer, mas da Esperança Cristã. O que se espera não é fruto de nossa imaginação ou de nossos desejos. O objeto da esperança é o que Deus quer e prometeu para a humanidade. As culturas humanas podem dar nomes diferentes. Os povos indígenas chamam de “bem-viver”. Os evangelhos chamam de “Reino de Deus”.  A esperança, pois, não depende da conjuntura favorável. Não pode ser prisioneira de nossas vitórias ou conquistas. Não depende dos resultados de nossos esforços humanos. E por isso se faz oração: “Venha a nós o teu reino”.
Nossa esperança se realiza aqui e agora, como dom do Espírito e a ela nunca poderemos renunciar ou rejeitar. Ao contrário, ela é a teimosia de saber que nossa luta é invencível. Que podemos ter perdido algumas batalhas e ainda perder outras, mas a luta continua e, como dizem os índios em Chiapas, sul do México: "Nós somos um exército de sonhadores. Por isso somos invencíveis". Essa esperança que o Advento reacende em nós, nos faz olhar sobre o Brasil atual, principalmente depois dessas eleições e sobre o próprio mundo, para além da desesperança. Daí é urgente a nossa tarefa de esperançar, de reavivar a esperança, tanto dentro de nós mesmos, como em nossas relações familiares, comunitárias e sociais. 
Para quem participa de grupos, movimentos e pastirais, esse é o projeto do tempo do Advento. Nas comunidades, é preciso realimentar a esperança como ensaio do reinado divino no mundo. Por isso, temos de partir da fé e desenvolver uma espiritualidade comprometida com um mundo melhor a partir dos mais pobres. Isso significa viver a esperança e a busca da intimidade com Deus não só no íntimo do coração, mas na luta por uma sociedade mais justa e por um mundo de acordo com o projeto divino. E assim poderemos responder ao que o autor da primeira carta de Pedro propunha: “Estejam sempre prontos/as a prestar contas da esperança que existe em vocês” (1 Pd 3, 15). Esperançar!
                                                                            Medoro, irmão menor-padre pecador