
Esta afirmação, na Oração do Pai nosso, legado autêntico da vida e missão de Jesus Cristo para os seus seguidores, em todos os tempos e lugares, traz consigo, não só uma moralidade pessoal de viver e andar segundo os valores do Evangelho, mas implicações fraternais, sociais, especialmente em relação aos pobres. A terra deve ser como o céu e não um inferno sobre a qual tantos sofrem.
Sim. É muito frequente ouvirmos das pessoas mergulhadas em seus sofrimentos pessoais e/ou circundantes exclamarem: “A minha vida está um inferno”. E o pior. Muitos afirmam blasfemando que é por vontade Deus, dizendo: “Aguente! O que você passa é um pedacinho da cruz de Cristo que Deus reservou pra você. Abrace a sua cruz!”. Ora, que visão mais sádica de Deus! Jesus nos revelou, contrariamente, um Deus misericordioso e bom!
Esta pseudo religiosidade, esta falsa espiritualidade nega a identidade missionária-misericordiosa do Filho de Deus entre nós: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E de fato a certeza que Jesus trazia consigo de que a vida eterna é um céu, o fez passar toda a sua trajetória histórica, até à morte na cruz, lutando para fazer da terra um céu. Daí, São Pedro resumir, em sua pregação, a vida de amor-serviço de Jesus a todos: “Ele passou entre nós fazendo o bem” (At 10,38).
Daqui, podemos deduzir, sem medo de nos equivocar, que a vida cristã se identifica pela fidelidade à vontade de Deus manifestada em Jesus: “Dei-vos o exemplo para que façais o mesmo que eu vos fiz” (Jo 13,15). O cuidado da vida dos empobrecidos e sofredores por amor distingue, pois, a comunidade cristã: “Nisso todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). A vida orante autêntica implica necessariamente a fraternura liberadora, o amor-serviço aos demais.
É exatamente no encontro da fé que fazemos a experiência do amor, da ternura e da misericórdia de Deus por nós e em nós. Aí crescemos, na autoconfiança, na autoaceitação, na autoestima, no amor por nós mesmos. E assim, nos permitindo ser amados por Ele, valorizamos as relações imediatas, na família, no trabalho, na comunidade e na sociedade; mediante o diálogo, a amizade, a confiança recíproca. Relações essas que devem ser vividas na Comunidade da Igreja como sinal de possibilidade efetiva e afetiva para todos.
Tal vivência eclesial da vontade de Deus de fazer da terra, pela via do amor, um céu para todos, nos lança a todos numa corrente de solidariedade que resgate, cure, promova e inclua toda vida ferida, machucada, ameaçada, excluída, oprimida, explorada, marginalizada e violentada. Toda pessoa humana tem intrínseca essa vocação de instrumento de vida e de paz. Muito mais nós cristãos, conhecedores da Palavra de Deus, não podemos não ser defensores, promotores e guardiães da vida com dignidade.
Ser cristão é ser, de fato, um construtor do céu! Essa vocação-missão imperativa encontra-se hoje ofuscada em muitas e muitas consciências de católicos e cristãos de outras igrejas que equivocadamente se desincumbem do amor-serviço a se darem por satisfeitos com seus ritos de louvor. Aqui cabe a duríssima condenação de Jesus: “Este povo me louva com os lábios, mas o seu coração está longe” (Mt 15,8). Ora. Não se trata de uma coisa ou outra, de louvar ou amar; mas de uma e outra, de louvar e amar! Não podemos continuar assistindo inertes ao dualismo perverso e destrutivo que separa fé e vida, louvor e amor, oração e ação, teoria e pratica, conservadores e progressistas, carismáticos e militantes, crescimento religioso e de religiões e crescimento da miséria e da violência.
A pessoa humana, na perspectiva bíblica ser unitário e integrado, buscando sinceramente o céu no céu, não se perca no caminho do amor pelo céu na terra, para não ser condenada no juízo final: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. (...) Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim (Mt 25, 41-45).
Medoro, irmão menor-padre pecador