No próximo dia 15 festejamos a proclamação da República. Se o novo regime não apresentou as características democráticas e populares tão desejadas, o fato de ter dado fim ao império baseado na escravidão e herdeiro da metrópole colonial-invasora, fez com que fosse uma grande conquista.

Nesse espaço histórico tivemos períodos de retrocesso, outros de avanço considerável, ziguezagues, e assim vai se construindo (muito mais lentamente que em nossos sonhos e orações) a Res-pública. Para a fé cristã, a Res-pública, a coisa pública, precisa de um Estado que seja mais e mais administrador da vontade popular.

A urgência desse postulado da cidadania, implica numa democracia ativa em todos os níveis: da rua, do bairro, da cidade, das entidades de classe, igrejas, da nação e na relação desta com as demais. Aos cristãos, no contexto atual, se exige uma ação de base que seja competente e ética.

 Na última segunda-feira, dia 5, foi realizada mais uma reunião do Movimento Fé e Política, na Paróquia de São José Operário. Desta feita não foi feita uma convocação ampla, pois o objetivo era reunir as pessoas que tem participado dessa caminhada, iniciada em maio deste ano de 2012, para conversar sobre a organização dos passos que deverão ser dados durante o próximo ano, como resposta a esse desafio social da fé cristã.

Por conta disso, pouco mais de 40 pessoas – dos municípios de  Três Rios, de Paraíba do Sul e de Levi Gasparian – estiveram presentes. Participante do movimento desde sua primeira reunião, também compareceu o vereador eleito Fabiano Batista, o que parece indicar que pretende um mandato comprometido com os ideais do Movimento Fé e Política e com a comunidade.

Quem nos ajudou, trazendo exemplos das práticas adotadas pelas Comunidades Eclesiais de Base, foi o Professor Névio Fiorin. Ele é ligado ao Instituto de Estudos da Religião, do Rio de Janeiro, onde atua assessorando justamente a Rede Estadual de Fé e Política.

Névio Fiorin destacou características que são importantes para o sucesso do Movimento. Entre elas estão a paciência, o ecumenismo, a prevalência das bases, o trabalho de formação e (mais destacadamente ainda) a fé.

A importância da paciência é fundamental para esperar que o que está sendo semeado. Um exemplo disso foi dado pelo Primeiro Encontro Nacional de Fé e Política, realizado em 1999, em Santo André. Os fundadores do Movimento marcaram o Encontro para “decretar” o seu fim. Achavam que ele já “tinha dado tudo o que tinha”. Esperavam no máximo 80 pessoas e acabaram comparecendo quase duas mil. Com isso, o que ia acabar teve um recomeço, uma ressurreição, e se revigora cada vez mais.

O ecumenismo, um ponto crucial para o Movimento, também é profundamente importante. É uma das diretrizes do Concílio Vaticano II sem o qual talvez nem tivessem surgido as condições para que os cristãos passassem a se envolver na vida política dentro da perspectiva contida na Carta de princípios do MF&P.

Névio Fiorin, lembrou inclusive que aqui no Estado do Rio, na Região dos Lagos, o Movimento é animado por irmãos das Igrejas Presbiteriana e Metodista. No 1º Encontro, já citado, havia uma numerosa delegação de adeptos da Umbanda.

Sobre as bases, com sua larga experiência na organização das CEBs, afirmou não acreditar nas “coisas que surgem de cima”.

Sobre o trabalho de formação, uma das grandes preocupações entre os que estão construindo o Fé e Política aqui entre nós, deu a sua contribuição com as cartilhas elaboradas pelo ISER, e as experiências que vem sendo desenvolvidas com a Rede Estadual de Fé e Política.

Mas, como já dissemos, salientou a importância da Fé. Sobre isso, citou um lavrador aqui de nossa Diocese. Provocado para definir o que era a fé, ele disse. “A fé não pode ser como raiz de mandioca. Deve ser como raiz de eucalipto”. A raiz de mandioca se espalha praticamente no nível do solo. A do eucalipto desce muito. É profunda. Assim deve ser a fé dos que se propõe a seguir a Carta de Princípios do Movimento Fé e Política e fazer da busca da utopia o horizonte da vida cristã.

Da próxima reunião, marcada para o dia 19 próximo, se espera o esboço de um planejamento para o desenvolvimento do MF&P durante o ano de 2013. Esperamos que isso se dê com a priorização de cursos de cidadania, centrados nas urgências ligadas ao desenvolvimento integral da cidade.  

Uma idéia é o aproveitamento das tardes de sábado para a realização de cursos breves sobre acompanhamento do legislativo, conselhos paritários, associações de moradores, e outras iniciativas de fortalecimento dos movimentos sociais.

A Fé cristã sem o comprometimento político com a Res-pública, sem ter os interesses do conjunto da sociedade e particularmente dos mais pobres como prioridade, se esvazia ou é ideologizada. Assim, fica reduzida a uma experiência religiosa sem fecundidade, sem a caridade social que distingue a comunidade dos seguidores de Jesus. Uma experiência religiosa, por mais intensa que seja, se não levar a uma cidadania ativa não coopera na salvação, mas se omite frente a condenação de milhões de filhos de Deus, ainda excluídos da Res-pública.

Medoro de Oliveira