O conjunto litúrgico do tríduo pascal nasce do desejo profundo dos cristãos de vivenciar o mistério de Cristo. E para responder a essa fome de espiritualidade compartilho a reflexão do jesuíta Padre Alex Pin.
Os primeiros cristãos não tiveram medo de tomar os acontecimentos pascais como centro de suas vidas. Isto é, tornar o lado mais escandaloso e desafiante da vida de Jesus, sua paixão e morte na cruz, o eixo duro a partir do qual irradiavam a mensagem do Filho de Deus.
Poderiam ter sido tentados a esquecer essa passagem da vida de Jesus e ficar com a glória da Ressurreição. Seria tão natural! Quando chegamos à vitória, esquecemos facilmente o percurso doloroso que nos conduziu a ela. Temos forte inclinação de sepultar longe de nós a dor, o sofrimento, os momentos de humilhação.
No final da 2ª Guerra mundial, a Alemanha está destruída e humilhada. Uma década e pouco depois, já erguia-se altiva. A geração que sofrera a guerra queixava-se de que a juventude não queria nem saber falar de guerra, só pensava no bem-estar que estava gozando. Assim poderiam ter feito os primeiros cristãos. Deixar para trás o Jesus humilhado e agarrar-se ao Cristo glorioso.
Mas o Espírito Santo, que assiste a Igreja, não a deixou desviar-se pelo lado fácil da glória, sem antes deter-se no escândalo da cruz. Talvez depois tenhamos caído no exagero oposto dolorista. E hoje percebemos como corte profundo da piedade popular esse culto à paixão. Às vezes até exagerado, esquecendo a Páscoa.
A beleza e profundidade da Liturgia consiste em restabelecer o verdadeiro equilíbrio. Há o longo tempo da Quaresma para a reflexão, para a oração, para o jejum, para a prática da caridade fraterna. Tempo de conversão. Depois iniciamos na quinta-feira santa o tríduo pascal com o memorial da Ceia do Senhor à tarde. Ele culmina com a celebração da Ressurreição na vigília pascal. Esta reforma litúrgica iniciada por Pio XII (1951) foi confirmada pelo Concílio Vaticano II.
A celebração da quinta-feira santa tem seus inícios no século VII com três missas. Na parte da manhã, havia a missa da reconciliação dos penitentes. Ao meio dia, a missa da consagração dos óleos santos. E à tarde, celebrava-se a ceia, sem liturgia da Palavra. Hoje temos resquícios dessa tradição. Em geral, no final da quaresma promovemos, em nossas paróquias, sentidas celebrações comunitárias da Penitência, além de oferecermos ocasião para se confessarem individualmente aqueles que quiserem.
Conservamos a ideia da reconciliação dos penitentes no final do percurso quaresmal. Na quinta-feira, pela manhã, temos a belíssima celebração da Missa da Unidade e da consagração dos óleos. Em geral, nas dioceses o bispo preside uma expressiva concelebração de todos os sacerdotes e com a presença de enorme multidão de fiéis. Dessa maneira exprime a unidade da Igreja e nela consagra os óleos santos, que servirão durante o ano para a administração dos sacramentos. À tarde, nas paróquias se comemora a Ceia do Senhor com o Lava-pés e o Sermão do Mandato da caridade.
A sexta-feira é dedicada à memória da Morte de Jesus. Dia de jejum com abstinência para que o nosso corpo acompanhe um pouco a meditação e contemplação dos sofrimentos de Jesus. Há uma única celebração que não é missa. Não se realiza o ato central da celebração eucarística, que é a consagração do pão e do vinho, mas se conservam as espécies consagradas da véspera. Distribui-se a comunhão. Os mais velhos devem lembrar-se que antigamente nem mesmo se podia comungar, significando a dor pela morte de Jesus. Hoje percebemos que a comunhão pode ajudar-nos mais a essa união com os mistérios de Jesus.
A Vigília Pascal encerra o tríduo. Entra-se no espírito da Páscoa. Irrompem as alegrias da Ressurreição. Momento de imenso júbilo recordando a vitória de Cristo sobre a morte. Deus Pai, que acolhera sua vida como oferta de amor salvador por nós, devolve-lhe, já não mais na forma mortal, frágil, mas sim gloriosa, imortal, esplendorosa.
Há tanta beleza para celebrar nesses três dias! As liturgias são, por isso, mais longas para que possamos curtir melhor esses mistérios. Temos também lindas procissões que deveriam ser momentos de oração e meditação. Que esta Semana Santa não nos passe despercebida! E sobretudo que não se converta em feriados prolongados, alheios a toda piedade!
Abençoada Páscoa!
Medoro, irmão menor-padre pecado