
É muito comum em nossa cultura religiosa denominar de Casa de Deus a Igreja, o espaço aonde se congrega a comunidade dos batizados, a família de Deus. O Concílio Vaticano II resgatou e valorizou a compreensão bíblica originária de Igreja como Assembléia dos Cristãos. E a catequese originária também ressalta que pelo batismo nos tornamos Templos Vivos dos Espirito Santo! Os nossos bispos, recentemente, ao elaborar as Novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil, para o quadriênio 2019-2022, explicitaram com admirável sabedoria, a compreensão da Igreja como Casa da Palavra de Deus, Casa do Pão, Casa da Caridade e Casa da Missão.
As referidas diretrizes foram aprovadas no último dia 6 de maio na 57ª Assembleia Geral da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O centro nas Novas Diretrizes é, uma vez mais, um chamado de volta às fontes, para olhar a experiência das comunidades primitivas e inspirados por elas formar, no hoje da história e na realidade urbana, pequenas comunidades eclesiais missionárias, com jeito de casa, de acolhida. Daí, um jeito novo de ser, de uma postura que lembre, evoque a ideia da casa que acolhe, que é espaço de ternura e misericórdia.
As Diretrizes Gerais reforçam que, na cultura urbana a casa é lugar onde as pessoas são identificadas pelo nome, pelo jeito, onde têm história e afeto. Daí o destaque para os quatro pilares essenciais da Casa de Deus: a) O pilar da Palavra de Deus, com destaque à catequese de iniciação à vida cristã; b) O pilar do Pão que é a casa sustentada pela liturgia e sobre a espiritualidade; c) O pilar da Caridade que é a casa sustentada sobre o acolhimento fraterno e sobre o cuidado com as pessoas, especialmente os mais frágeis e excluídos e invisíveis, sem nenhum tipo de discriminação e d) O pilar da Missão porque é impossível fazer uma experiência profunda com Deus na comunidade eclesial que não leve, inevitavelmente, ao anuncio do Evangelho aos demais.
A realidade urbana, profundamente fragmentada, carregada de luzes e de sombras, mas também cheia de potencialidades, é definida muito mais do que um lugar sócio geográfico, mas como uma mentalidade e cultura. Nesta realidade a Igreja é convidada a ser presença como casa, como comunidade eclesial missionária. Dom Nelson, nosso bispo, signatário dessas diretrizes lembra que as mesmas, “apontam para um rumo muito bonito, porque partem de uma perspectiva de encontro com Deus e com os irmãos, numa dinâmica de acolhida, de portas abertas, de ir ao encontro, de espera e acolhida ativa para formar as comunidades”.
As nossas comunidades são convidadas, pois, a serem luzeiros no meio do mundo urbanizado. As comunidades podem estar em qualquer lugar: no condomínio, numa praça, no trabalho; como também nas paróquias, comunidades, nos colégios, universidades nas obras sociais, etc... Uma Igreja Católica mais urbana, missionária e acolhedora, que se transforme em “casa” principalmente para os mais vulneráveis, como jovens, os empobrecidos e idosos. Sim. A “descartabilidade” das pessoas na cultura urbana nos leva a pensar a nossa casa, não como construção, mas como lar.
O mundo urbano, todavia, não é só a cidade. “Onde entram a internet e a energia elétrica, lá está a realidade urbana, marcada por tanto sinais positivos, avanços tecnológicos, mas também com preocupações, contradições e ambiguidades. A Igreja do Brasil tem de se preocupar com a questão da pessoa em seu individualismo, solidão e anonimato (...) A grande questão é a crise do sentido da vida. Dai, o compromisso de propor uma experiência de igreja que seja mais comunitária. E isso, nesse tempo de uma tendência natural de se viver a religião de forma mais privatizada”. As pessoas têm muitas escolhas e nem sempre preferem o encontro com o outro. Todas as diretrizes insistem na formação de pequenas comunidades onde a pessoa sai do anonimato da solidão, se converte em testemunha numa sociedade cada vez mais plural.
Na questão da sociedade, foram considerados os pontos relativos à ética, ou à falta de ética, na economia, na política e na cultura. São os desafios que nós temos para tornar nossa sociedade mais justa e fraterna. É bom lembrar que nossos bispos se basearam na doutrina social da Igreja que prevê o humanismo integral e solidário, para todas as pessoas, do nascituro até aquele que está para morrer. A maior preocupação da Igreja não é com o número de cristãos, mas a qualidade do testemunho desses cristãos onde eles estão. O desafio é ser testemunha do Evangelho da alegria, no amor-serviço para que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10).
Medoro, irmão menor-padre pecador